Como Hayley Williams transformou rascunhos íntimos em um dos trabalhos mais importantes da sua carreira
"Ego Death At A Bachelorette Party" nasce de faixas soltas e apresenta desabafos, caos organizado e uma honestidade brutal.
Em uma ação surpresa, em conjunto com sua empresa Good Dye Young, Hayley Williams, vocalista do Paramore, disponibilizou em um site dezessete músicas inéditas, que posteriormente foram lançadas nas plataformas digitais como seu terceiro álbum de estúdio, intitulado “Ego Death At A Bachelorette Party”.
Durante seus mais de 20 anos de carreira, Hayley Williams cresceu dentro da indústria musical liderando o Paramore enquanto passava por diversas fases de sua vida, e o amadurecimento da artista é notável conforme a trajetória da banda e de sua carreira como solista. De uma banda de rock de garagem, comandante da cultura emo no início dos anos 2000, a um grupo que hoje em dia se consolida no cenário alternativo, com melodias e letras mais introspectivas, o Paramore conquistou o espaço que tem hoje e continua com sua fiel fanbase.
A banda, que lançou em 2005 o seu álbum de estreia “All We Know Is Falling”, manteve o mesmo ritmo em seu sucessor de 2007, “Riot!”, com letras badass destacadas por uma frontwoman empoderada, que contava suas vivências predominantemente femininas em uma indústria que sempre foi dominada por histórias de homens, sobre homens e para homens. A chave virou em 2013 com o álbum autointitulado da banda: as melodias, ainda que mantivessem o seu lado punk, tornavam-se cada vez mais lentas, com harmonias combinadas com ótimos backing vocals de Justin York ou até mesmo vocais double-layered da própria Hayley Williams. Questionando mais a dureza de viver no mundo moderno, complicações de se apaixonar, violência e outros temas são debatidos neste novo Paramore, que se destaca por uma coisa muito simples trazida a partir desses trabalhos: introspecção.
Em 2017, com o álbum “After Laughter”, o Paramore oficialmente se tornou uma banda mais pop. Não há músicas com riffs de guitarra característicos como nos álbuns prévios, e foi uma mudança que abalou a relação com muitos fãs, já que agora não restava mais nada daquele som emo adolescente que a Hayley de 15 anos escrevia. Agora era a Hayley de quase 30 contando sobre a dor de um relacionamento fracassado e suas lutas contra a depressão.
Essa depressão foi ainda mais explorada em seus discos solo, “Petals for Armor” (2020) e “FLOWERS for VASES/descansos” (2021). Aqui, Hayley Williams expressa unicamente todas as suas dores e transformações durante uma época de pandemia após enfrentar um divórcio. Sua era mais “dark” é notável nas composições.
"Sorry, I was in a depression, but I'm trying to come out of it now"
— Dead Horse (2020)
Em “Ego Death At A Bachelorette Party” a ideia não era fazer um álbum, e sim apenas lançar músicas soltas para se expressar ao mundo novamente. Com a experiência imersiva e secreta de precisar de um código exclusivo para acessar sua página, os fãs notaram que as faixas estavam expostas como arquivos mp3 em uma área de trabalho bagunçada de um computador antigo, ou seja, não existia uma ordem certa para ouvir.
Justamente por isso, dias depois, a cantora lançou todas as 17 faixas em suas plataformas digitais, mas como singles, já que elas não foram feitas para compor uma narrativa. Isso não impediu, no entanto, que se tornassem um álbum: os fãs convenceram a cantora a organizar as músicas como parte de seu terceiro trabalho de estúdio. A partir daí, Hayley passou a estudar como as faixas se encaixavam, contando também com a ajuda dos fãs, que montavam playlists e compartilhavam nas redes sociais suas sugestões de ordem.
A parte mais difícil é conectar o que não foi feito para ser um conjunto. Não há um foco central: é uma coletânea de desabafos que, por algum motivo, estão juntos em um álbum. Mas quem disse que isso não pode dar certo? Nem sempre um disco precisa ter uma lore por trás, ou um alter ego como o “Ziggy Stardust” de David Bowie. A liberdade artística permite mostrar pontos de vista e histórias pessoais, mesmo que em alguns momentos soe desconexo. Da vibe mais deslocada na faixa de abertura “Ice In My OJ” às músicas mais sentimentais sobre paixão, como “Love Me Different” e “Disappearing Man”, o álbum faz quem está ouvindo pausar e pensar: “Meu Deus, ela passou por isso?”
São histórias diferentes, de tempos diferentes, tons e sonoridades mais diversas ainda. Mas por que foi uma boa ideia transformar isso em um álbum e não manter apenas como descartes? Porque, querendo ou não, aqui existe sim uma história que se conecta: a difícil trajetória de Hayley Williams. A mulher que enfrentou um divórcio, que faz uma declaração de amor ao seu antidepressivo em “Mirtazapine” e pede para morrer em “Kill Me” entregou seu trabalho mais elaborado e sincero desde “After Laughter”. O disco traz uma sensação de tristeza, mas ao mesmo tempo conforto ao ouvinte, que consegue se identificar com os temas de fragilidade e impotência.
O trabalho maduro de Hayley foi abraçado não somente pelos fãs, mas também pela crítica, sendo até agora o álbum mais bem avaliado de 2025 no Metacritic. A equipe de produção tatuou, junto com Hayley, a palavra “Glum” em seus corpos — nome de uma das faixas que ganhou clipe e se tornou a mais reproduzida nos streamings.
Faixas favoritas: Ice In My OJ, Kill Me, True Believer, Mirtazapine, Love Me Different, Hard e Disappearing Man


